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Livro: Alerta Vermelho — de investidor na Rússia à história de Sergei Magnitsky
Terminei de ler Alerta Vermelho (Red Notice), do Bill Browder, e achei a história muito mais interessante do que eu esperava.
E fiquei bem curioso, porque até então eu não sabia da ligação do livro com Sergei Magnitsky, justamente porque recentemente tivemos no Brasil a aplicação da Lei Magnitsky a um ministro do Supremo Tribunal Federal. Fonte oficial: U.S. Treasury
O que eu não sabia era de onde vinha o nome Magnitsky e como Bill Browder estava ligado à criação desse mecanismo de sanções.
Como a história começa
Browder não foi para a Rússia como ativista. Foi como investidor.
Depois do fim da União Soviética, ele percebeu que várias grandes empresas russas estavam sendo negociadas por valores muito baixos em relação aos seus ativos. A oportunidade era enorme, mas o ambiente também era extremamente arriscado.
É nesse começo que aparece um nome muito conhecido no Brasil: Edmond Safra.
Safra foi um dos banqueiros mais importantes do século XX. A própria Fundação Edmond J. Safra registra que sua família se estabeleceu no Brasil e que ele e o pai fundaram o Banco Safra. Mais tarde, Edmond criou o Republic National Bank of New York e construiu uma operação bancária internacional. Fundação Edmond J. Safra
Browder conseguiu o apoio de Safra para criar o Hermitage Fund e investir na Rússia.
Para mim, isso deixa o começo do livro especialmente interessante: por ter um investidor corajoso pronto para entrar em um mercado pouco conhecido e um investidor cuja família é bem conhecida no Brasil.
A morte de Edmond Safra
A história de Safra tem um final estranho e trágico.
Em 3 de dezembro de 1999, Edmond Safra morreu em um incêndio em sua residência em Mônaco. A própria Fundação Edmond J. Safra registra oficialmente que ele foi vítima de um incêndio criminoso (arson) em sua casa. Fonte institucional
Browder cresce na Rússia — e começa a comprar briga
O Hermitage cresceu e se tornou um dos maiores investidores estrangeiros na Rússia.
Browder começou então a investigar empresas nas quais investia. Segundo seu relato, encontrava operações que transferiam valor das companhias para administradores, controladores e pessoas próximas deles, prejudicando acionistas minoritários.
Ele passou a reunir documentos e levar essas histórias à imprensa.
Durante algum tempo, isso funcionou a seu favor.
Até que, em 2005, Browder chegou a Moscou e foi impedido de entrar no país. Ele passou a administrar seus negócios de fora da Rússia.
Depois, em 2007, autoridades fizeram buscas nos escritórios da Hermitage e de seus prestadores jurídicos. Documentos societários foram apreendidos. Posteriormente, empresas anteriormente pertencentes ao grupo foram transferidas para outros proprietários e usadas em um esquema de pedidos fraudulentos de restituição tributária.
O valor central da história é aproximadamente US$ 230 milhões.
O Conselho da Europa documentou posteriormente o mecanismo: empresas foram fraudulentamente registradas em nome de criminosos, lucros foram eliminados por decisões e obrigações fictícias e, em seguida, impostos anteriormente pagos foram pedidos de volta ao Tesouro russo. Conselho da Europa — relatório de 2013
É aqui que Sergei Magnitsky entra na história
Sergei Magnitsky, 2006. Imagem: Voice of America / Wikimedia Commons, domínio público.Sergei Magnitsky é frequentemente chamado de “advogado de Browder”, mas isso simplifica um pouco.
Ele era um especialista russo em tributação e contabilidade que trabalhava com questões jurídico-fiscais para a Firestone Duncan. O Tribunal Europeu de Direitos Humanos o descreveu como auditor, enquanto o Conselho da Europa o descreveu como especialista em tributação e contabilidade.
Magnitsky analisou o que tinha acontecido com as empresas ligadas à Hermitage e investigou o enorme reembolso tributário.
Segundo a documentação examinada posteriormente pelo Conselho da Europa, Magnitsky denunciou o esquema e identificou agentes públicos que, segundo suas descobertas, estavam ligados ao caso.
Então aconteceu algo impressionante: em vez de a história terminar com a investigação das pessoas denunciadas, Magnitsky foi preso.
Em 24 de novembro de 2008 ele entrou em prisão preventiva, acusado em um processo de evasão fiscal.
O tratamento de Magnitsky na prisão
Essa é provavelmente a parte mais pesada do livro.
Magnitsky permaneceu preso por quase um ano.
Sua saúde piorou significativamente. Ele apresentou problemas médicos graves e fez repetidos pedidos de atendimento.
O caso foi posteriormente examinado pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos, portanto aqui já não dependemos apenas da narrativa de Browder.
Em 2019, o tribunal concluiu que:
- o atendimento médico fornecido a Magnitsky foi inadequado e contribuiu para sua morte;
- as condições de sua prisão violaram a Convenção Europeia de Direitos Humanos;
- ele sofreu maus-tratos de agentes penitenciários pouco antes de morrer;
- a investigação posterior sobre esses maus-tratos foi inadequada;
- a duração de sua prisão preventiva violou seus direitos;
- o processo conduzido contra ele depois de sua morte foi injusto.
A decisão está disponível diretamente no Tribunal Europeu de Direitos Humanos.
Sergei Magnitsky morreu em 16 de novembro de 2009, aos 37 anos.
O Conselho da Europa registrou ainda que ele morreu depois de sofrer agressões com cassetetes de borracha, embora existam contradições nos registros sobre seus momentos finais e a sequência precisa dos acontecimentos. Relatório do Conselho da Europa
A vida de Browder muda completamente
Depois da morte de Magnitsky, Browder praticamente deixa de ser apenas o investidor que aparece no começo do livro.
Ele começa uma campanha internacional para responsabilizar pessoas ligadas ao caso.
A lógica era interessante: se dentro da Rússia fosse difícil responsabilizá-las, seria possível atingir patrimônio, contas e liberdade de viajar para outros países.
Isso acabou contribuindo para a criação da legislação americana conhecida como Magnitsky Act.
A primeira lei americana, de 2012, era diretamente relacionada ao caso russo. Depois surgiu o Global Magnitsky Human Rights Accountability Act, ampliando a ideia para sanções contra pessoas de outros países acusadas de corrupção grave ou sérias violações de direitos humanos.
Foi justamente esse mecanismo global que voltou ao noticiário brasileiro décadas depois da prisão e morte de Sergei.
Os vídeos que Browder e sua equipe publicaram
Uma das coisas mais interessantes é que os vídeos mencionados nesse universo ainda existem.
Browder e sua equipe produziram uma série chamada Russian Untouchables, apresentando documentos e acusações sobre pessoas que eles relacionavam ao esquema. São materiais produzidos pelo lado de Browder, portanto devem ser vistos como parte de sua investigação e campanha, não como decisões judiciais.
Episode 1 — Artem Kuznetsov
Assistir diretamente no YouTube
Episode 2 — Pavel Karpov
Assistir diretamente no YouTube
Episode 3 — Olga Stepanova
Assistir diretamente no YouTube
The Magnitsky Files — Dmitry Klyuev
Assistir diretamente no YouTube
O relatório de 2013 do próprio Conselho da Europa cita alguns desses vídeos, inclusive The Magnitsky Files e o episódio sobre Pavel Karpov.
Bill Browder depois de Magnitsky
Bill Browder em evento sobre o Global Magnitsky Act, 2015. Hudson Institute / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.O mais curioso para mim é a transformação do personagem ao longo do livro.
Ele começa querendo ganhar dinheiro na abertura econômica russa. Passa por privatizações, oligarcas, empresas subavaliadas, conflitos societários e uma enorme concentração de riqueza.
Depois da morte de Magnitsky, a história muda.
O objetivo de Browder passa a ser convencer governos a impor consequências financeiras e restrições de viagem contra pessoas acusadas de violações graves.
Hoje ele continua liderando a Global Magnitsky Justice Campaign. O site oficial de Bill Browder reúne entrevistas, material sobre o livro e sua campanha.
O que mais me marcou
Para mim, o livro tem praticamente duas histórias.
A primeira é sobre dinheiro: o capitalismo russo depois da União Soviética, privatizações, investidores estrangeiros, bancos, oligarcas e a oportunidade de ganhar fortunas em um mercado completamente fora do padrão.
A segunda começa com Sergei Magnitsky.
A partir daí, deixa de ser essencialmente uma história sobre investimentos e passa a ser uma história sobre a tentativa de Browder de responsabilizar internacionalmente as pessoas que ele considera responsáveis pelo que aconteceu.
E talvez a maior surpresa para mim tenha sido perceber que aquela “Lei Magnitsky” que apareceu recentemente no noticiário brasileiro tem sua origem justamente nesse homem do livro: Sergei Magnitsky, um especialista tributário que investigou uma fraude milionária, foi preso e morreu sob custódia do Estado russo.
Fontes para conferir
- Tribunal Europeu de Direitos Humanos — Magnitskiy and Others v. Russia
- Conselho da Europa — Refusing impunity for the killers of Sergei Magnitsky
- Conselho da Europa — relatório de 2026 sobre o dinheiro ligado à fraude denunciada por Magnitsky
- Edmond J. Safra Foundation — biografia oficial
- U.S. Treasury — sanções anunciadas contra Alexandre de Moraes em 30/07/2025
- Bill Browder — página oficial de Red Notice
- Wikimedia Commons — fotografia de Sergei Magnitsky